Depoimento de Professor 2
No ano letivo de 2010, lecionei em uma turma de alunos muito rebeldes e indisciplinados. Era uma turma de 2ª série do Ensino Médio. Eles não respeitavam professor nenhum. Já no início das aulas começavam as algazarras, as críticas e a falta de respeito. Era uma espécie de nazismo.
Na sala de aula havia um grupo de alunos autossuficientes, arrogantes, prepotentes e mal-educados, que queriam controlar a sala. O outro grupo era dos alunos bem comportados, que queriam estudar e aproveitar o conteúdo e as atividades desenvolvidas durante as aulas, mas ficavam oprimidos e sufocados, diante da situação de opressão e de bagunça.
No primeiro dia de aula foi tudo bem, tudo normal. Apresentei-me, apliquei dinâmica com eles, como é de praxe. Nesse dia saí com uma boa impressão deles. Mas da segunda aula em diante, a coisa mudou de figura, os alunos indisciplinados começaram a mostrar as unhas, chegavam ao ponto até de desafiarem meu conhecimento. São daqueles tipos que acham que o professor tem obrigação de saber de tudo. É como se o professor fosse um robô, uma máquina programada, que já tivesse o conhecimento pronto, uma espécie de computador. São alunos que estudaram e ainda estudam em escolas e com professores muito tradicionais, que acham que a escola é voltada apenas para a transmissão de conhecimentos. Acho que não sabiam ou não admitiam que a escola também é centrada no pleno desenvolvimento do educando. Assim, deveriam entender que a escola é um espaço de questionamentos, de discussões e de debates para construir e reconstruir o conhecimento, levando em conta a realidade de cada um. Não entendem que, a sociedade que vivemos agora é a sociedade da informação, da comunicação e do conhecimento.
Sentia-me impotente, insegura e oprimida. Sofri muito com essa turma. Não adiantava sermão, chamar a diretora da escola, mandar se retirar da sala, dar suspensão. Nenhuma dessas atitudes e providências funcionou. No final da aula, saia da sala muito irritada, deprimida e revoltada. Mas tive que suportar essa situação até o final do ano letivo.
Como eu ensinava Redação nessa turma, assim que foi lançado o filme: “Carregadoras de Sonhos”, produzido e lançado pelo Síntese, o comprei. Logo resolvi exibi-lo para essa e outras turmas, no sentido deles, sentirem na pele a luta e o sofrimento dos professores, principalmente aqueles que precisam se deslocar para outra cidade e para outro Estado para levar e interagir o conhecimento com os alunos.
De início pensei que eles não iam dar valor nenhum às cenas exibidas, mas me enganei completamente, foi um sucesso.
Após a exibição do filme, realizei um debate e análise do filme. Depois pedi que eles fizessem um relato argumentativo do filme. Os textos ficaram uma beleza. Eles tiveram a oportunidade de expor suas opiniões a respeito do filme. Assim, perceberam e sentiram a realidade nua e crua da luta dos professores em prol da sobrevivência.
Após ler e corrigir as redações de todas as turmas, tirei cópias e as encadernei, no sentido de ter a prova verídica de seus depoimentos. Pena que só pude exibir esse filme no final da IV unidade. Mas surtiu efeito, valeu a pena. Continuo exibindo esse filme para outras turmas e, os alunos, ficam surpreendidos. Muito até falam que não sabiam que os professores sofressem tanto assim. Eu sou uma dessas professoras, pois além de lecionar aqui no Estado de Sergipe, leciono também no Estado da Bahia.
Professora Cleide Oliveira
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